Depois de algum tempo
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes
Não creias,
Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
Sophia M. Breyner Andersen
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...
Fernando Pessoa
Nunca perguntas se algo me fizeste
Quando ao teu lado eu murcho e silencío.
Tu não percebes que estou por um fio
E tão instável quanto o vento leste.
Tu não me vês perdida em meu vazio,
Onde me falta o tanto que já deste,
Onde só vejo o quanto já esqueceste
O amor de outrora, agora tão sombrio.
Tu não percebes quão latente é o grito
Que há nos meus olhos quando os teus eu fito,
Num permanente ensaio de partida.
Se perguntares se algo me fizeste,
Eu te direi: "que nada, amor! só te esqueceste que no meu sangue ainda corre vida!".
Silvia Schmidt
Humancat
Tenho medo amor
Está frio, muito frio
E eu estou tão sózinha...
Saudades dos teus braços
Macios e fortes
Onde está a tua chama?
Era quente
Aquecia-me
Iluminava os meus dias
E eu não tinha medo
Amor, meu amor
Hoje não procuro o teu calor
Prefiro estar assim, só
Mas tenho medo,
A noite está tão escura!
Chamas-te a neve
Agora está frio
Tenho medo
CM
Chove.
Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele?
Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa
O que me perturba não é que me tenhas mentido mas que, de agora em diante eu já não tenha confiança em ti.
Nietzsche
"Vem por aqui"- dizem-me alguns
Com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta
Criar desumanidade,
Não acompanhar ninguém
-Que eu vivo com o mesmo
Sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha mãe
Não! Não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se às coisas que eu pergunto (em vão) ninguém responde
Porque me dizeis vós - "Vem por aqui?"
Prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos
A ir por aí...
Se eu vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada
Como, pois sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para derrotar os meus obstáculos?
Corre nas nossas veias
Sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil...
Eu amo o longe e a miragem
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide!
Tendes estradas
Tendes jardins,
Tendes canteiros
Tendes pátrias
Tendes tetos
E tendes livros,
E tratados
E filósofos
E sábios
Eu tenho a minha loucura
Levanto-a, como um facho
A arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e
Cânticos nos lábios!
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu que nunca principio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo
Ah! que ninguém me dê piedosas intenções.
Ninguém me peça definições.
Ninguém me diga "Vem por aqui!"
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio
Queria ir ao sol contigo, amor.
Mas tu não me perguntas.
Não imaginas o meu desejo de ir ao sol,
É forte, forte
E eu não to digo amor.
E tu pensas que eu quero, gosto
De estar na terra.
CM
Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sózinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente
Sophia M. Breyner Andersen
"Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram."
Fernando Pessoa
"- Desde que desejes, podes ir a qualquer lugar e em qualquer momento."
"- Continua a trabalhar no amor, Fernão."
Richard Bach