terça-feira, abril 19, 2005

Depois de algum tempo

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.Começas a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas.Começas a aceitar as derrotas de cabeça erguida a olhar em frente, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.Aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair no vácuo.Depois de um tempo aprendes que o sol te queima se ficares exposto por muito tempo.E aprendes que, não importa o quanto tu te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam...E aceitas que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e tu vais ter de perdoá-la por isso.Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.Descobres que demoras anos para construir confiança e apenas segundos para a destruíres... e que podes fazer coisas num momento das quais te arrependerás durante o resto da vida.Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida.E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.Aprendes que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam... Percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida são roubadas da tua vida muito depressa... por isso devemos sempre separar-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vemos.Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que tu consegues ser.Descobres que demoramos muito tempo a conquistar a pessoa que queremos ser, e que o tempo é curto.Aprendes que não importa onde já chegaste, mas para onde estás indo... mas, se não sabes para onde está indo, qualquer caminho serve...Aprendes que ou tu controlas os teus seus actos ou eles te controlarão... e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências.Aprendes que ser paciente requer muita prática.Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te derrube, quando caíres é uma das poucas que te ajudam a levantar.Aprendes que maturidade tem mais a ver com as experiências que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já passaram por ti.Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são loucuras... seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.Descobres que só porque alguém não te ama da forma que queres que ame não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém...Algumas vezes tens de aprender a perdoar a ti mesmo.Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, serás um dia condenado.Aprendes que não importa em quantos pedaços teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar.Portanto, planta o teu jardim e embeleza a tua alma, em vez de esperares que alguém te traga flores.E aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não aguentas mais.E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!Nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.
Autor desconhecido

domingo, março 06, 2005

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinicius de Moraes

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinicius de Moraes

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Lídia

Não creias,
Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
Sophia M. Breyner Andersen

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Marioneta

Este texto circulou na internet com a indicação de ter sido escrito por Gabriel Garcia Marquez, que então lutava contra um cancro linfático. Posteriormente o poeta desmentiu tal facto vindo a apurar-se que é da autoria de um simples ventríloquo, Jonhy Welch, que trabalha no México. O que é belo mantém a sua beleza, independentemente de quem é o autor...
"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso mas, certamente, pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e apreciaria um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente nada, atirar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, como a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol brilhasse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas, um poema de Mario Benedetti e uma canção de Serrat a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes – amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.
Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens...
Aprendi que toda a gente quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com a sua pequena mão pela primeira vez o dedo do seu pai, o tem prisioneiro para sempre.
Aprendi que um homem só tem o direito de olhar outro de cima para baixo para o ajudar a levantar.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês mas, finalmente, não poderão servir de muito porque quando me olharem dentro dessa caixa, infelizmente estarei morto."

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Não quero rosas

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...
Fernando Pessoa

domingo, dezembro 26, 2004

Se Perguntares

Nunca perguntas se algo me fizeste
Quando ao teu lado eu murcho e silencío.
Tu não percebes que estou por um fio
E tão instável quanto o vento leste.
Tu não me vês perdida em meu vazio,
Onde me falta o tanto que já deste,
Onde só vejo o quanto já esqueceste
O amor de outrora, agora tão sombrio.
Tu não percebes quão latente é o grito
Que há nos meus olhos quando os teus eu fito,
Num permanente ensaio de partida.
Se perguntares se algo me fizeste,
Eu te direi: "que nada, amor! só te esqueceste que no meu sangue ainda corre vida!".
Silvia Schmidt
Humancat

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Montecchios e Capuletos no final fizeram as pazes

"Esta manhã nos trouxe a paz sombria: esconde o sol de pesadume, o rosto. Ide; falai dos factos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há-de viver de todos na memória de Romeu e Julieta a triste história"
William Shakespeare
Romeu e Julieta

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Tenho medo

Tenho medo amor
Está frio, muito frio
E eu estou tão sózinha...
Saudades dos teus braços
Macios e fortes
Onde está a tua chama?
Era quente
Aquecia-me
Iluminava os meus dias
E eu não tinha medo
Amor, meu amor
Hoje não procuro o teu calor
Prefiro estar assim, só
Mas tenho medo,
A noite está tão escura!
Chamas-te a neve
Agora está frio
Tenho medo
CM

sábado, dezembro 18, 2004

Chove. Que fiz eu da vida?

Chove.
Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele?
Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Primeiros Cadernos I

" Se ainda me oprime alguma angústia, é por sentir este momento intangível escorregar-me entre os dedos como as pérolas do mercúrio. Deixem pois aqueles que se querem separar do mundo. Eu não me lamento visto que contemplo o meu nascimento. Sou feliz neste mundo pois o meu reino é deste mundo. Nuvem que passa e instante que se desvanece. Morte de mim próprio perante mim próprio. O livro abre-se numa página amada. Como ela hoje é insípida em presença do livro do mundo. Será verdade que sofri, não será verdade que sofro; e que este sofrimento me enebria, visto que ele é este sol e estas sombras, este calor e este frio que se sente muito ao longe, ao fundo da aragem. Perguntarei a mim próprio se qualquer coisa morre e se os homens sofrem visto que tudo está escrito nesta janela sobre a qual o céu derrama a sua plenitude. Posso dizê-lo e di-lo-ei dentro em breve que o que conta é ser humano, simples. Não, o que conta é ser verdadeiro e então tudo aí se regista, a humanidade e a simplicidade. E em que outro momento serei eu mais verdadeiro e mais transparente do que quando sou o mundo?
Instante de adorável silêncio. Os homens calaram-se. Mas o canto do mundo eleva-se e eu, acorrentado ao fundo da caverna, sinto-me cumulado antes de desejar. A eternidade está ali e eu esperava-a. Agora posso falar. Não sei o que de melhor poderia desejar senão esta contínua presença de mim próprio em mim próprio. Não é ser feliz que desejo agora, mas apenas ser consciente."
Albert Camus

domingo, dezembro 12, 2004

Espero o que não espero

Espero o que não espero, nem sol, nem chuva. Apenas um vento gelado a agitar os dias que eu queria quentes.
Onde estás? Por onde andas? Sol quente do meu Verão tardio já Outono, com folhas caídas e dias cinzentos. Gosto de sentir as tuas carícias tépidas enquanto me enrolo em recordações e sonhos agora irrealizáveis.
Olhos de carvão, bonitos... Sim ainda lembro os teus olhos negros molhados pelas lágrimas enquanto me miram e murmuras:
"- Não me despeço. Não me vou despedir. Não te vou beijar aqui ou não poderei partir."
E vejo-te a ir, na escada rolante do Colombo. Partes uma e outra vez, tantas quantas aquela cena me vem à memória. E eu fico parada, continuo parada. Não corri para ti. Deixei-te ir, a ti e à mala que trazias na bagageira, preparado para ficares comigo.
Perdi-te quando te deixei ir. Deste então senti que te afastavas, aos poucos porque doía, e íamos ficando cada vez mais distantes. Como se as centenas de quilómetros que nos separavam se fossem transformando em milhares.
Tive medo!
Durante muito tempo nada fazia sentido. Sem ti não vi o sol nem a lua, recusei o mar, os sorrisos e a alegria. Sem ti procurava, procurava-te mas já não estavas. Aquela escada rolante levou-te de mim para longe e eu empurrei-te. Mesmo quando senti que fugias, mesmo quando não encontrava sentido para os meus dias, mesmo quando a dor da saudade me sufocava. Empurrava-te de mim, com medo do futuro que eu queria perfeito.
Mas o meu futuro, agora presente, não é perfeito, e não vivi o meu presente agora passado.
E hoje vivo aos solavancos na procura de um sentir igual, que não encontro, que não existe. Não te tenho.
Infelizes ambos, sem o futuro perfeito pela frente.
E sufoco a culpa, a minha culpa, porque deixei partir numa escada rolante a única pessoa com quem partilhei a alma.
CM

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Mentira

O que me perturba não é que me tenhas mentido mas que, de agora em diante eu já não tenha confiança em ti.
Nietzsche

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Cântico Negro

"Vem por aqui"- dizem-me alguns
Com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta
Criar desumanidade,
Não acompanhar ninguém
-Que eu vivo com o mesmo
Sem-vontade
Com que rasguei o ventre de minha mãe

Não! Não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se às coisas que eu pergunto (em vão) ninguém responde
Porque me dizeis vós - "Vem por aqui?"

Prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos
A ir por aí...

Se eu vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada
Como, pois sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para derrotar os meus obstáculos?

Corre nas nossas veias
Sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil...
Eu amo o longe e a miragem
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide!
Tendes estradas
Tendes jardins,
Tendes canteiros
Tendes pátrias
Tendes tetos
E tendes livros,
E tratados
E filósofos
E sábios

Eu tenho a minha loucura
Levanto-a, como um facho
A arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e
Cânticos nos lábios!

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu que nunca principio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo

Ah! que ninguém me dê piedosas intenções.
Ninguém me peça definições.
Ninguém me diga "Vem por aqui!"

A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Régio

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Ir ao Sol

Queria ir ao sol contigo, amor.
Mas tu não me perguntas.
Não imaginas o meu desejo de ir ao sol,
É forte, forte
E eu não to digo amor.
E tu pensas que eu quero, gosto
De estar na terra.
CM

terça-feira, novembro 30, 2004

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sózinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face
Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies de silêncio
Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente
Sophia M. Breyner Andersen

segunda-feira, novembro 29, 2004

Ao Jaime

Sempre que me lembro do Jaime vejo-o com a camisola de lã azul, tricotada à mão, que o acompanhou durante toda a adolescência. Recordo todos os pormenores do seu rosto cuja fealdade nós, as raparigas, ignorávamos ao fixar-lhe os olhos de um azul profundo e enfeitiçador.
O Jaime, apesar de mais velho, era o meu confidente, chorava com as minhas tristezas e vibrava com os meus triunfos. Devorava tudo o que eu escrevia, gravava cassetes com as músicas dos Eagles, que depois me emprestava em troca de uma conversa que habitualmente se prolongava durante horas. Falávamos de tudo, partilhávamos ideias, discutíamos opiniões para, no final, me deixar levar um caderno com as poesias que escrevia em segredo e que eu lia antes de adormecer.
No grupo de teatro amador era ele quem convencia o encenador a dar-me o papel principal.
Sempre soube que o Jaime sentia por mim um amor de que não falava porque sabia não ser correspondido. Ele era assim, olhava-me e adivinhava o que eu sentia ou pensava. “- Através dos teus olhos consigo ler o que te vai na alma – dizia."
No aniversário dos meus quinze anos ofereceu-me um livro, “Últimos Cadernos” de Camus, que ainda guardo entre os meus tesouros.
Mais tarde, seguimos caminhos distintos em cidades diferentes.
Soube da sua morte, num acidente de automóvel, meses depois de ter ocorrido. Chorei por ele e pela perda da minha meninice inconsciente e ingénua.
Ainda hoje sinto uma saudade imensa do Jaime. Releio o livro que me ofereceu e, na minha ilusão, é como se voltássemos a estar juntos de novo retornados à nossa juventude. Só agora me apercebo do quanto ele influenciou a minha maneira de ser e o meu modo de encarar o mundo.
Afinal aqueles que encontramos “fazem-nos, moldam-nos, constroiem-nos...”
CM

sábado, novembro 27, 2004

Quero

Quero sair do abismo. Esgravato, os dedos em sangue, a garganta seca de terra e pó.
Vejo-te em baixo, dei-te a mão para tentarmos os dois. E tu, nem queres seguir-me!
Teus dedos não estão em sangue, conformaste-te em estar no abismo.
Cantarei ao chegar, talvez não ouças o eco do meu pranto.

Muito depois vou murmurar "Estou saturada de não ser objecto de amor".
CM

segunda-feira, novembro 22, 2004

Desassossego....

"Não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram."
Fernando Pessoa

domingo, novembro 21, 2004

Meu Amor Era De Noite

"Meu amor, era de noite e eu não sabia se ia ao seu encontro ou se ia a fugir de si, ou se era a fugir de mim que eu ia ao seu encontro naquela noite de temporal e ventania.
Meu amor, era de noite. (...)
Sei que é perigoso, sei que é mesmo muito perigoso, mas agora isso já não tinha nenhuma importância, tanto me fazia chegar ou não chegar, viver ou não viver, e, de alguma maneira, eu sabia que não me ia acontecer nada de especial, tinha a íntima certeza de que o meu destino não podia ser esse, acabar ali sem voltar a vê-la e a falar consigo de viva voz.
Era tarde, já muito tarde, meu amor, e eu ia assim a cortar a noite à desfilada, os arbustos no separador da auto-estrada desgrenhavam-se continuamente em sacudidelas desvairadas de desespero, era como se estivessem ali, à luz dos faróis nos dois sentidos, para me varrerem a alma sem piedade, chovia, chovia muito e eu não conseguia deixar de esperar uma chamada sua."
Vasco de Graça Moura

quinta-feira, novembro 18, 2004

O Marido Perfeito


Caminhava ao acaso junto ao Tejo. Ao longe ouviam-se vozes. Absorto andava, sem destino ou finalidade.
Momentos preciosos partilhados consigo próprio. Apenas ele, tal qual ele, sem encenações, omissões e aparências. Pensou nela, a mulher com quem há muitos anos partilhava o dia a dia. Como reagiria se lhe falasse abertamente de tudo o que lhe ia na alma? Será que entenderia que a amava de uma forma tranquila, calma, apesar de existir outra pessoa na sua vida? Compreenderia as suas angústias, os seus medos, a necessidade de viver e experimentar sensações diferentes? Aceitaria as viagens de trabalho que inventava apenas porque necessitava de fugir durante algum tempo dos dias iguais que o sufocavam?
Imaginou-se a ser ele próprio, sem artifícios, a dizer-lhe que detestava o rolo de carne que ela fazia, mas que adorava a maneira como o olhava ao acordar...
Intenção breve... Ser ele próprio significaria perdê-la a ela e à vida que partilhavam... Tudo continuaria igual. Manteria a sua encenação, dando-lhe a conhecer apenas o conveniente...
Afinal todos somos um pouco actores, personagens das estórias que vivemos e inventamos. Confusos, já nem sabemos onde está a fronteira entre a ficção e a realidade, na busca incessante de encontrar alguém ( que não existe) com quem partilhar a alma.
CM

quarta-feira, novembro 17, 2004

Fernão Capelo Gaivota

"- Desde que desejes, podes ir a qualquer lugar e em qualquer momento."
"- Continua a trabalhar no amor, Fernão."
Richard Bach

terça-feira, novembro 16, 2004

NUNCA É TARDE PARA ACORDAR

Oceano
Diariamente o escritor olhava o mar do terraço e observava a mulher que entrava água dentro vestida e sorridente. "- É louca -" pensava. Depois mergulhava nos seus escritos e na sucessão de dias iguais e monótonos sentindo o tempo escoar-se a conta gotas.
Num momento em que o tédio se tornou insuportável e a insatisfação o invadiu uma vez mais, caminhou até ao areal, olhou a imensidão azul e, quase instintivamente entrou no mar sem tirar roupas e sapatos.
O choque da água gelada acordou-o.
Descobriu então que jamais esqueceria aquele banho, diferente dos outros todos, em que não respeitara as convenções mas que o acordara.
Por magia percebeu que até aí se limitara a passar pela vida e a fazer o correcto, o certo... o que os outros esperavam dele.
E, serenamente, decidiu começar a viver e a sentir intensamente as coisas pequenas. Mergulharia nas águas revoltas uma e outra vez. E, quando lhe chamassem louco, saberia sorrir como só os loucos felizes o sabem fazer.
CM